Chegou o dia que Reinaldo já imaginava desde que classificou o Maricá para a elite do futebol do Rio de Janeiro. Disputando o seu primeiro Campeonato Carioca como técnico, o ex-atacante enfrenta o Flamengo pela primeira vez na nova carreira e reestreia no Maracanã neste sábado, às 19h (de Brasília), pela última e decisiva rodada da Taça Guanabara. Jogo que vale para os dois lados. Já classificado, o Flamengo disputa com o Volta Redonda o título simbólico da Taça Guanabara, primeira fase do estadual. O Maricá, por sua vez, que chegou a ser a sensação no início do campeonato, mira uma vaga na semifinal da Taça Rio. Um mix de muitas emoções para o jovem técnico de 45 anos: — Ah, uma experiência única, né? A expectativa é a melhor possível, vai ficar marcado na minha carreira. Na carreira do clube primeiramente, por ser o primeiro jogo na história no Maracanã, do nosso torcedor. E sem dúvida para a gente também, para mim como treinador, com a minha comissão e os meus atletas. Jogar no maior templo do futebol, contra o Flamengo, um jogo valendo taça para o Flamengo, e a gente almejando ainda uma classificação no possível G-8. Então sem dúvida nenhuma vai ser inesquecível poder ter esse momento em nossas carreiras.
Reinaldo tem 133 jogos, 47 gols e 5 títulos pelo Flamengo: Cariocas de 1999, 2000 e 2001; Copa Mercosul de 1999 e Copa dos Campeões de 2001. A mesma estrela que Reinaldo teve no começo da carreira no Flamengo, quando tinha acabado de subir da base e foi campeão três vezes em cima do Vasco no tri estadual de 1999 a 2001, o ex-atacante vem mostrando agora em seu início como treinador. Desde 2020 trabalhando no profissional, já levantou três troféus: a Taça Santos Dumont (espécie de Taça Guanabara da Série A2); o Carioca da Série A2 e a Copa Rio, que deu vaga na Série D do Brasileirão. Como um dos representantes da nova safra, ele espera abrir portas para mais técnicos negros no país: — Eu sei da minha responsabilidade. Acho que as portas vão se abrir para treinadores negros, não somente no futebol masculino, como no futebol feminino, basquete... É lamentável ver o que está acontecendo ainda sobre o racismo, não somente aqui, vê o caso do Vinícius Jr., entre outros. Eu acho que a justiça tem que começar a ser mais severa, a pena tem que começar a ser mais severa. Isso para mim nunca vai acabar, mas o quanto mais a gente puder ajudar nisso, estar junto nesse processo, eu acho válido. Então eu sei da minha responsabilidade como treinador negro, esse é um dos meus objetivos também: fazer um bom trabalho e abrir portas para outras gerações. Representar muito bem as cores negras e ser um cara sempre correto, fiel aos meus princípios e valores.
Relação com o Flamengo — A relação com o Flamengo é muito antiga, desde a época de criança, de Maracanã com meu pai. E criei aquela identidade já com o Flamengo, o amor que o meu pai tinha pelo Flamengo. Depois eu, como torcedor, virei um atleta do Flamengo, construí uma história muito bacana e agora estou nessa caminhada como treinador. E o destino quis enfrentar o Flamengo no primeiro jogo do clube e meu primeiro jogo (como técnico) no Maracanã.
Lembra da sua estreia? — Lembro. Minha estreia foi Flamengo e Madureira, Campeonato Carioca. Se eu não me engano, foi 5 a 0. Na semana da estreia eu estava jogando na quarta-feira pelos juniores, que hoje é o sub-20, e no sábado o professor Carlinhos pediu para eu fazer um coletivo. Eu fiz o coletivo bem e estreei no domingo contra o Madureira. Sem dúvida nenhuma, não sai da minha memória porque foi o meu primeiro jogo com a camisa do Flamengo. Esperei tanto para aquele momento e pude realizar aquele sonho meu e do meu pai.
Relação com o Campeonato Carioca — Eu sou um iluminado. Porque quando jogava eu ganhei três Cariocas pelo Flamengo e uma Taça Guanabara também pelo Botafogo. É muito prazeroso participar do Campeonato Carioca. Agora, em somente quatro anos como treinador, iniciar uma carreira e já de cara ter um Campeonato Carioca da primeira divisão, isso é muito bom. Isso aí faz elevar o nível, faz você crescer na profissão, e graças a Deus a gente está fazendo um campeonato muito bom com o Maricá, um caçula da competição. É claro que a gente almejava algo melhor na competição, mas conseguimos o primeiro objetivo, que era a permanência. Isso serve como aprendizado também, agora tem a última batalha que é no Maracanã.
Gol sobre o Vasco na final de 2000 — Aquilo ali foi a afirmação. Um gol na final contra o Vasco, um Maracanã lotado, uma arrancada no meio de campo, 2 a 1. Então aquilo ali foi a minha afirmação com a camisa do Flamengo, minha afirmação no futebol brasileiro. Fazer um gol na final, um gol com a camisa do Flamengo contra o maior rival. Sem dúvida nenhuma, aquele gol ali foi o mais importante que eu tive na minha carreira pelo momento. Por ser uma final, Maracanã lotado, jogo difícil... Tive frieza e graças a Deus a competência de fazer um gol tão importante para mim e para o clube.
Jogos marcantes contra o Flamengo — Contra o Flamengo? Eu tive jogos também memoráveis, por exemplo, pelo São Paulo. Fiz dois gols. Pelo Botafogo, na final de 2009, fiz um gol de cabeça também. É um título que faltou na minha carreira (pelo Botafogo), é uma camisa que eu honrei, mas no segundo tempo eu machuquei o tornozelo, eu e o Maicosuel saímos naquele jogo. Depois daquela lesão, eu realmente não consegui ter a melhor performance. Mas acho que foram esses dois jogos. No caso, foram dois jogos e três gols (risos). O que eu sempre procurei fazer, mesmo com todos os times que eu joguei, sempre fui muito profissional e procurei honrar da melhor forma possível. Estou fazendo assim também como treinador.
Zagallo como referência — O Zagallo foi uma referência que eu tive na época de jogador. Para mim, foi o maior de todos. Não somente meu treinador, mas o maior de todos os tempos. Então o aprendizado foi gigantesco, eu trago muita coisa de todos os treinadores com quem eu trabalhei na minha carreira, mas o Zagallo é especial. Me ensinou muita coisa na parte de gestão, na parte tática... Fui um escolhido por poder ter sido treinado pelo Zagallo. Um cara de várias Copas do Mundo, campeão do mundo, enfim, jogou com os melhores, treinou os melhores e graças a Deus eu estou nessa relação de ter sido treinado por ele. Para mim foi um motivo de muita honra e orgulho.
Brilho na final Flamengo x São Paulo em 2001 — Foi o primeiro jogo da Copa dos Campeões, que daria vaga para a Libertadores. Foi 5 a 3, eu fiz um gol e dei três assistências. Individualmente falando, foi o meu melhor jogo com a camisa do Flamengo e um dos melhores da minha carreira. E a preleção do Zagallo... Todas as preleções eram memoráveis, ele tinha esse dom de saber mexer no nosso emocional, naquele momento decisivo. Ele sempre falava que estava ali para nos proteger de qualquer coisa, para a gente desfrutar do momento, desfrutar de uma final. Eu passo isso para os meus atletas, desfrutar do momento. O Zagallo tinha umas falas muito pontuais que sem dúvida conseguia ainda mais tirar o nosso máximo.
Frase marcante — É uma das falas do Velho Lobo: "final não se joga, final se ganha". Mas com organização, com trabalho, sem loucura... A gente sabe que numa final tem um adversário também que quer vencer, mas o Zagallo trabalhava muito essa parte nossa mental. Acho que era um dos fortes dele. Referência atual — Hoje eu tenho como referência o Rogério Ceni. Para mim, é um treinador que eu vejo como completo: sabe jogar com posse de bola, tem no modelo de jogo o jogo de transição, então ele se adapta muito bem à forma dos jogadores, a forma com o clube em que ele está também. Tem clube que a cultura é jogar mais defensivo, tem clube que a cultura é ser totalmente ofensivo. Então eu vejo o Rogério Ceni como uma inspiração. É um cara também que eu toco bastante ideia, tenho aprendido muito toda vez que falo com ele.
Relação com o Maricá — Estou na minha terceira temporada com o Maricá. Tem uma história bacana aqui porque o diretor de futebol, o Douglas Oliveira, foi o meu primeiro treinador em 1995. As pessoas acham que o meu início foi no Flamengo, mas foi no Barra da Tijuca em 95. Lá foi onde eu me destaquei, fiz 25 gols e depois fui contratado pelo Flamengo. A gente criou um vínculo de muito profissionalismo, de amizade, e ele me fez uma convocação: "Eu quero você aqui no projeto do Maricá". Já vinha de alguns trabalhos, sei da seriedade que há na diretoria aqui, meu irmão jogou aqui, então já tinha um vínculo com a cidade. Sei do amor do torcedor pelo clube, então eu aceitei de primeira.
— Primeiro ano em 2023 foi muito ruim de desempenho, de pontuação, mas a diretoria viu que dava para ter continuidade no trabalho. Em 2024, tivemos um ano mágico, conquistamos tudo que nós disputamos. A Série A2, a Copa Rio e a Taça Santos Dumont. E esse ano, com a sequência, graças a Deus, conseguimos também dar orgulho para o nosso torcedor. A gente dá o máximo pelo clube, conseguiu uma pontuação importante e nós ainda estamos vivos numa possível classificação. Vida na pacata Maricá — A vida em Maricá é tranquila. Eu vivo em Maricá 24 horas, o clube me dá essa estrutura também de morar aqui, de poder analisar o adversário, de poder viver o clube com análise de vídeo, montagem de treinamentos, tática individual, nde você chama o atleta para conversar, para ajustar posicionamento... Está sendo muito boa essa convivência, poder também ajudar no crescimento da cidade, no esporte, nos projetos... Então está sendo muito bacana essa junção, Reinaldo treinador e a cidade comigo. Acho que deu liga (risos).
Projeto do clube — Quando eu fui contratado foi para isso, para subir o time. Junto com os atletas, óbvio, eles que executam tudo que é passado. A permanência da primeira divisão e tentando buscar ainda uma classificação no G-8. E dar sequência no projeto com a Série D. Esse ano tem calendário o ano todo. O projeto do clube é buscar um acesso na Série D, se Deus quiser ano que vem estar na C. Sabendo que é um primeiro ano numa Série D, um campeonato nacional, um campeonato diferente. Temos a Copa Rio também, que é um campeonato importante, onde vamos buscar o bi campeonato.
— Então é dar sequência, sempre também puxando jogadores da base. Hoje temos sete no nosso elenco profissional O projeto do clube é esse, a longo prazo, de um dia quem sabe estar disputando uma Série A de Brasileirão. Está muito longe disso acontecer, mas aqui é um clube muito sério, a diretoria é muito séria, e toda vez que eles colocam uma coisa na cabeça vão atrás, eles vão dar essa estrutura para isso. Como falei, esse ano é um ano de experiência, primeiro ano na primeira divisão (Carioca), na Série D... É um projeto ambicioso.
Meta como treinador — Eu espero alcançar uma carreira como treinador como eu tive como atleta. Uma carreira de sucesso, joguei em clubes gigantes no futebol brasileiro, fora do Brasil. E espero isso como treinador também, de um dia estar treinando um clube grande, de Série A. Vou trabalhar muito para isso, aprender muito, tem muito para aprender ainda, muita coisa para caminhar até lá. Nova safra de treinadores — É fruto de um trabalho. Primeiramente falando do ex-atleta, está tendo muita briga de ex-atleta com os acadêmicos. Eu acho que tem que ter esse equilíbrio. O cara não pode ser treinador somente porque jogou. O cara tem que estudar, se qualificar para isso. Aí, sim, faz a junção do vestiário de 15, 20 anos de carreira da parte teórica. E o acadêmico também não pode achar que sabe tudo porque é o cara da parte teórica. Tendo esse equilíbrio, é meio caminho andado para as coisas darem certo. E essa nova geração aí, é muito bom ver o trabalho, por exemplo, do Filipe Luís e de outros treinadores.




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