20/6/2014 10:26
Tic, tac, tic, tac: a implacável e melancólica marcha do tempo
A derrota dos grandes campeões sempre me traz uma ponta de melancolia. Vê-los batidos, ao fim do período em que brilharam intensamente e pareciam invencíveis, me remete à lembrança da inexorável marcha do tempo e do igualmente implacável círculo da vida. Por isso, ao contrário da maioria dos brasileiros, não consegui vibrar com a precoce eliminação da Espanha.
Senti-me, de certa forma, voltando numa máquina do tempo a uma longínqua noite perdida nos início dos anos 70. Nela, sentado diante da TV em preto e branco, recordo com perfeição do olhar estupefato que meu pai me lançou ao ver Muhhamad Ali desabar na lona, ao final do décimo-quinto round de sua primeira luta contra Joe Frazier.
O portentoso gancho de esquerda, disparado no ringue armado no Madison Squarte Garden, é considerado por muitos o mais violento golpe já desferido na “nobre arte” — entre outras coisas porque levou à lona, pela primeira vez, o maior pugilista de todos os tempos.
Sim, é verdade que Ali voltaria a enfrentar (e bater) Frazier duas vezes e, numa épica e inesquecível luta, no Zaire, recuperaria o cinturão de campeão do mundo dos pesos-pesados, ao nocautear o gigantesco George Foreman.
Mas foi naquele knock-down de 1971 que o mundo descobriu que ele já não era mais imbatível. O mito tornara-se humano e, portanto, falível e mortal.
Guardadas as devidas proporções, experimentei sensação idêntica ao ver Gustavo Kuerten ser batido na primeira rodada de Roland Garros, em 2005. Naquele mesmo torneio surgia um garoto espanhol que assumiria o seu posto de rei do saibro parisiense. E voltei ao Brasil triste por constatar o fim dos tempos de glória do nosso Guga.
Essa desagradável sensação de gosto de cabo de guarda-chuva (cáspite, essa é do tempo da minha avó!) me tomou também ao ver Zico se despedir dos gramados e Emerson Fittipaldi se arrastar pelas pistas, guiando o Copersucar. Menos mal que Emmo ainda foi capaz de voltar a vencer e brilhar na Fórmula-Indy. Mas aí a história já era outra, bem diferente. Nelson Piquet nem isso teve, ao destruir os pés no muro de Indianápolis. Já Ayrton Senna se eternizou ao morrer no auge, na pista, liderando, como sempre e para sempre.
Acompanhar, hoje em dia, Roger Federer ser eliminado antes das semifinais dos grandes torneios de tênis me provoca frustração. Sou fã de Rafael Nadal e Novak Djokovic, mas assistir à decadência do genial suíço dói.
Prefiro finais felizes, como o de Pete Sampras, no US Open de 2002, ou Pelé, com a camisa da seleção brasileira, na Copa de 70. Ronaldo Fenômeno chegou a ensaiar algo assim, no Mundial de 2002, mas acabou vivendo a decadência de 2006, com o malsinado “Quadrado Trágico”. Até em seu surpreendente canto de cisne, no Corinthians, houve um amargo Tolima pra fechar a conta. Precisava?
Após dominar o futebol mundial nos últimos cinco anos (conquistando duas Eurocopas e um Mundial), a Espanha viveu aqui na nossa Copa o seu “momento Tolima". Perder, faz parte e o início do processo de decadência do Barcelona (base da seleção) já sinalizava o inevitável envelhecimento do talentosíssimo grupo espanhol.
O que me deixou desolado foi a forma acachapante como o fim de seu ciclo acabou decretado — em dois jogos, duas derrotas inapeláveis, uma delas, a da estreia, desmoralizante.
Menos mal que a imprensa espanhola soube reconhecer tudo o que Iniesta, Xavi, e seus valorosos companheiros já fizeram. O Marca estampou uma gigantesca foto de Iniesta sob o título “The End” e chorou a eliminação no subtítulo “Lamentável final da época mais gloriosa de La Roja”. Já o Ás optou por “Foi bonito", completando, em letras menores, “Embora duro" e, ainda colocou no alto da página, “Maracanã marcou o fim de uma geração gloriosa”.
Se eu fosse espanhol e editor de jornal por lá teria publicado na capa, sobre alguma foto expressiva, apenas uma palavra: “GRACIAS”! E iria pra casa macambúzio e, irremediavelmente, mais velho. Como ficamos a cada tic-tac.
Highlander
E não é que o Fantasma de 50 renasceu? Que diferença faz Luisito Suárez!
1115 visitas - Fonte: O Globo
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