10/8/2014 10:41
Filhos de quatro patas
Dia dos Pais, futebolzinho mequetrefe nesse nosso insosso Campeonato Brasileiro (as exceções são Cruzeiro e Fluminense), Flamengo penando na lanterna e Dunga de volta à seleção, já chutando a renovação pra escanteio, ao dar importância a amistosos que nada valem... Me desculpem, mas nessa meu retorno, após uma merecida semana de folga, prefiro homenagear o “velho”.
Além da paixão por todos os esportes (que me transmitiu como lição de vida), meu pai era alucinado também por cães. Herdei dele esse amor que, quando eu ainda era jovem, não era compartilhado nem por minha mãe (que hoje em dia já se rendeu), nem por minha irmã (que ainda resiste). Por conta dessa “racha” familiar, foi duro emplacarmos o primeiro cachorro em casa.
A muito custo, quando passei no vestibular, conseguimos dobrar mamãe e, como prêmio, lá veio o “Tenente” (meu pai era oficial da marinha): um simpático vira-latas que, por ter um pouco de sangue de pastor (e de várias outras raças...), logo elegeu o seu ser humano preferido: eu ou papai? Que nada! Agarrou-se à minha mãe... Vai entender!
É bem verdade que ela o “comprou” com maestria e sem alarde. Bastava Tenente se deitar embaixo da mesa (e ele adorava fazer isso, na hora das refeições ou quando jogávamos cartas) e ela, discretamente, descalçava o sapato e, com os dedos do pé, coçava a barriga dele horas a fio. Pronto! Estava selado um amor pra toda a vida.
Eu e meu pai nos divertíamos. Porque justamente ela, que dizia detestar cachorros, passara a ser o xodó do animal. Quando a gozávamos, ou mostrávamos outros cães, na rua, ela resmungava:
— Não gosto de cachorros. Eu gosto do Tenente!
Papai e eu, porém, gostávamos de qualquer um. E tínhamos especial adoração pelos pastores alemães, naquela época, um dos cães mais populares no Rio, juntamente com o boxer, o collie, o miniatura pinscher e o pequinês — havia também, em menor número, exemplares de doberman e irish setter. Curiosamente, nos dias de hoje, quase todas essas raças desapareceram das ruas cariocas.
Voltando àqueles tempos, me lembro que ver um “Rin Tin Tin” (nome do cão que estrelava o seriado de enorme sucesso a que nossa família toda assistia, junta, diante da única TV da casa, na sala) era um deleite pra mim e pro velho. Babávamos, quando cruzávamos com algum. Mas como criar um animal daquele porte, num apartamento? E como convencer mamãe a adotar outro “filho”? Sem chances, mantínhamos a admiração à distância e nos contentávamos com o nosso bravo vira-latas.
O tempo passou, Tenente morreu de velhice, com 12 anos, e nunca mais nossa casa teve um fiel amigo peludo. Nesse meio tempo, me casei, me mudei, posteriormente, morei na Europa, os pastores alemães sumiram da cidade (a não ser acompanhando policiais ou soldados) e não se falou mais nisso. Num dia terrível pra todos nós, papai faleceu em 1992, deixando no meu peito uma ferida como a de “Lancelot”, em Excalibur: jamais cicatriza. Recordar nossas histórias é uma forma de reencontrá-lo.
Vida que segue, no ano passado, convencido por minha filha Luiza, que pouco conviveu com o avô, mas sempre ouviu com brilho nos olhos as histórias dele na nossa antiga casa de Teresópolis, acabei me rendendo e comprando outra “toca de veraneio”, desta vez em Itaipava, para que toda a família, como ela pedia, pudesse voltar a se reunir e reviver, com a nova geração, os saudosos e inesquecíveis tempos em que meu pai era o grande patriarca.
Fechado o negócio, há um ano, embora a casa já “viesse” com três cães adultos, que os antigos donos não puderam levar (um gigantesco São Bernardo, um Labrador e um Shit-zu), me lembrei de papai e de nossa paixão por pastores alemães. E, assim, adquiri um lindo filhote desta raça, além de um Golden Retriever, desejo da Luiza.
Resumo da ópera: neste dia dos Pais, além dos dois amados filhos bípedes (o outro é Michael, que mora em Medellin) posso me orgulhar de ter ainda mais seis de quatro patas (porque, no Rio, já há algum tempo, existe um mini poodle da minha filha).
O nome do pastor? Rin Tin Tin, claro! Esse me elegeu desde o primeiro dia, me segue como uma sombra e cada vez que o abraço e o acaricio é como se, de alguma forma, abraçasse também o meu velho, com carinho e saudade.
Aposto que, lá de cima, papai também curte muito a nossa “Ponderosa” (nome da casa, dado em homenagem a outro seriado da época, “Bonanza”, que também víamos todos juntos). Tenho certeza de que ele se diverte um bocado toda vez que brinco com a matilha. E baba, como eu, com o “nosso” lindo e garboso pastor alemão.
Minha mãe? Adora todos os cães e faz questão de “deseducá-los”, deixando-os lamber o restinho do iogurte que toma nas refeições. Até o Bento, o feroz São Bernardo (verdadeiro cão de guarda da casa!) já se rendeu a ela. Pena, meu velho, que falta você. Nossa saudade não tem braços, mas como aperta...
Feliz Dia dos Pais!
2363 visitas - Fonte: Blog do Renato Mauricio Prado (O Globo)
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