Canteros mostra as tatuagens dedicadas à família Foto: Luiz Ackermann / Agência O Globo
Quando decidiu negociar com o Flamengo, que hoje enfrenta o Criciúma, em Santa Catarina, às 16h, Héctor Canteros surpreendeu na Argentina. Por que deixar o Vélez, pelo qual fora duas vezes campeão do Clausura, para se aventurar num time que flertava com a lanterna? Mas quem conhece sua trajetória sabe que é preciso mais do que um clube em crise para assustá-lo.
Ao chegar ao Flamengo, o argentino se deparou com a zona do rebaixamento, troca de técnico e um jogador agredido por torcedores. Um cenário que não chega perto do dia em que se jogou no chão quando uma partida foi interrompida por tiros.
— Eu jogava por dinheiro. Na Argentina acontece muito em jogos de um bairro contra outro. Num deles, houve discussão e começaram os tiros. Todos tiveram que se atirar no chão — recorda o volante, de 25 anos. — Uns se surpreendem, mas faz parte.
Canteros (o primeiro à esquerda) com seu time de pelada do bairro onde cresceu, em Buenos Aires Foto: Reprodução
Tito, seu apelido, cresceu na Villa 17, ou La Pirelli, em Buenos Aires. Grosso modo, as vilas são as favelas argentinas. Com o futebol nas veias desde novo, se dividia entre as divisões de base dos clubes e as peladas. No chão de terra, aprimorou seu talento se desviando (ou levando) de pontapés maldosos:
— O que meu pai sempre diz, e me deixa tranquilo, é que, se alguma vez eu duvidar quando enfrentar algo, que olhe para de onde saí, para o que sofri e pelo que me fez mais forte. E me sinto muito mais orgulhoso.
Mas a experiência na Argentina não o impede de se surpreender por aqui. Uma de suas admirações é o convívio de torcidas diferentes muitas vezes sem forte aparato policial, o que em seu país é impensável. E mesmo tendo crescido entre as vilas, um emaranhado de casas e cores atraiu seu olhar.
— A Rocinha me surpreendeu. Gostaria de conhecer um lugar desses para saber como se vive lá. As pessoas às vezes se queixam muito e não veem que muita gente passa por coisa pior — explica.
A família do volante Canteros, do Flamengo Foto: Reprodução
Essa ideia resume a resposta para quem ainda questiona sua escolha. Em vez de mirar as dificuldades rubro-negras, ele prefere lembrar que está no país do futebol.
— O futebol me ensinou mais que o colégio. Ele me formou como jogador e pessoa. Não fosse jogador, não sei onde estaria — afirma.
Seleção: pés no chão
A carreira de Canteros pode ser dividida entre antes e depois do encontro com Ronaldinho Gaúcho. O confronto, pelo Superclássico de 2011, lhe rendeu elogios. Mas o mais importante veio do camisa 10 brasileiro, que jogou os holofotes da imprensa mundial sobre o volante.
— Naquele momento não me dei conta. Depois, quando tive uma lesão, repensei tudo o que tinha passado com o Ronaldinho. Eu o admiro por tudo o que fez, e fiquei muito contente. Outra coisa que o futebol dá, né? — lembra Canteros, que um ano depois foi emprestado ao Villarreal-ESP.
Mas um novo brilho pela seleção argentina é algo que não domina os seus sonhos. Apesar da pouca idade, ele mostra maturidade ao revelar as prioridades.
— O Flamengo é o clube que me dá de comer. Então só penso nele. Se me convocarem para a seleção será um prêmio pelo que fiz aqui.
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