Humildade e personalidade: na cola do pai, Jorge salva ano do Flamengo

18/11/2015 19:50

Humildade e personalidade: na cola do pai, Jorge salva ano do Flamengo

Lateral-esquerdo faz caminho inverso dos antigos companheiros para desabrochar, despacha concorrência no time e vira alvo do interesse de vários clubes do exterior

Humildade e personalidade: na cola do pai, Jorge salva ano do Flamengo
Após muita insistência, Jorge consegue quase na marra uma foto com o pai, que é alheio a flashes (Foto: Ivan Raupp)

O Flamengo teve poucos motivos para comemorar em 2015. O futebol não disputou nenhum título, sofreu eliminações frustrantes e deixou muito a desejar. Mas houve, mesmo que poucos, aspectos positivos. Um deles, talvez o maior, foi o desabrochar do lateral-esquerdo Jorge. O jovem de apenas 19 anos, quando ainda nos juniores, foi convocado pela seleção brasileira para o Mundial sub-20, onde foi o melhor de sua posição, e logo depois foi integrado aos profissionais do clube. Bastou uma chance como titular do Rubro-Negro para agarrar a vaga com tudo. Não sentiu a pressão e despachou a concorrência com facilidade, tornando-se absoluto no setor. Para completar o melhor ano de sua vida, vem sendo chamado para a seleção olímpica (sub-23), que vai defender o país nas Olimpíadas do Rio de Janeiro em 2016. Não à toa que há alguns meses ele é alvo de diversas consultas de times do exterior, interessados em contar com seu talento.

Ao mesmo tempo em que Jorge é novo, dá para dizer que seu estouro ocorreu de forma até tardia em relação aos antigos companheiros. Apesar de sempre ter sido titular na base do Flamengo, nunca foi um dos grandes destaques nas categorias anteriores. Via vários colegas de Ninho do Urubu serem convocados e ficava na esperança, que só se concretizou neste ano. Como profissional, no entanto, tudo se inverteu. O lateral passou a ser um dos grandes destaques do elenco e a ser chamado para a seleção brasileira, enquanto os antigos companheiros, em sua maioria, ou ainda estão na base, ou já deixaram o Flamengo e estão em clubes menores, ou desistiram da carreira e tomaram outros rumos.

- Antigamente eu via as convocações, não via meu nome e ficava triste demais. Me dedicava bastante. Mas eu sabia que o momento chegaria. Era me manter focado e manter a preparação que vinha tendo. Sempre via jogadores de alta qualidade sendo convocados, passando para o profissional, não só no Flamengo. E o que me colocou na seleção olímpica e no profissional do Flamengo foi a cabeça boa, não desistir dos sonhos e objetivos dentro do clube. Muitos de repente não tiveram um conselheiro, como tenho meu pai - disse, em entrevista ao GloboEsporte.com no condomínio onde mora, no Rio de Janeiro.

A relação com o pai, por sinal, é o que Jorge mais considera especial em sua vida. Principal incentivador do filho a ser jogador de futebol, Seu Marco fez tudo que esteve ao seu alcance para transformar o sonho em realidade. E conseguiu. Apesar do pai ser separado da mãe de Jorge, Dona Márcia - que vive com o irmão do lateral, Peterson, em Campo Grande, no Rio -, a família tem ótima relação, base estrutural para o atleta. Foi do pai também que Jorge herdou a torcida pelo Flamengo, desde pequeno, e a influência para se espelhar em Junior, ex-lateral-esquerdo que marcou época no Rubro-Negro. Isso sem falar no nome Jorge Marco, que combinou homenagens ao cantor Jorge Aragão, de quem o pai é fã, e ao próprio Seu Marco. O paizão acompanha a carreira do filho nos detalhes e analisa todos os números possíveis dele.

Do começo na escolinha do Flamengo às passagens pelo futebol de salão do América, do Vasco e do próprio Fla, onde por fim encontrou o campo, Jorge foi devidamente preparado, física e mentalmente, para estar no lugar que ocupa atualmente. Transformou-se rapidamente em uma das revelações do Campeonato Brasileiro. E vem mais por aí. Na entrevista, ele demonstrou acima de tudo humildade e personalidade. Veja o bate-papo a seguir, na íntegra.

GloboEsporte.com: Você está fazendo sucesso, mas vale explicar para quem ainda te conhece. Quem é o Jorge?

Jorge: O Jorge de verdade é um cara humilde e que procura sempre ajudar o próximo para ter a recompensa no final. Meu objetivo é procurar evoluir na humildade, no caráter, sempre ter cabeça boa para prosseguir na vida. Aprendi muito com meu pai que na vida temos que ter humildade e respeitar o próximo para colher frutos. Então, o Jorge é humildade, coração bom e honestidade.

Sobre ajudar o próximo: você deu cestas básicas para os funcionários do Ninho do Urubu no seu primeiro salário como profissional, certo?

Verdade. Antes do salário ser renovado, eu estava conversando com meu pai sobre um dia ajudar as pessoas lá de dentro com cestas básicas, porque passei um ano e dois meses ali. Quando você completa 18 anos, tem que sair da concentração. São pessoas que me ajudaram muito, e posso dizer que evoluí morando ali. O descanso, a concentração, tudo era perfeito. Essa humildade que tive de reconhecer os trabalhadores de lá... Eu mesmo fiquei feliz com o que fiz. Seguranças, porteiros, pessoal da lavanderia e da cozinha... Tenho muito carinho por eles.

Dá para notar que seu pai sempre foi seu grande incentivador. Vocês dividiram esse sonho de você se tornar jogador de futebol?

Com certeza. É um grande pai, eu o chamo de "meu herói". Posso dizer, com toda a certeza do mundo, que ele me fez chegar aonde estou. Se não fossem ele e Deus na minha vida, acho que não estaria conquistando essas coisas. Ele sempre me incentivou, deu força, deu conselhos para seguir nesse meio do futebol, que é difícil. Tiro o chapéu para ele e sempre vou agradecer a ele pelo herói que é comigo.

E seu pai jogava bola também? Jogava bem?

Jogava, sim. Era volante e enganava na direita também, né (risos)? Diz ele que era ambidestro, mas não acredito muito nisso não. Não vi vídeo dele ainda, então...

Nessa jornada, você se lembra de algum episódio marcante que viveu ao lado do pai? Chegaram a passar dificuldade?

A gente passou muita (dificuldade). Já tive que pegar vários ônibus para ir treinar, e eu colocava camisa de escola. Tinha dia que não podia levar dinheiro para o lanche, ao contrário de outros atletas. Então, lá atrás a gente passava dificuldade sempre. Ele fez tudo de bom para a gente conseguir o que está conseguindo hoje, está sendo um pai e uma mãe para mim, sempre me apoiou. Sempre me dava força para manter a tranquilidade e saber esperar o momento certo de acontecerem as coisas.

Você é um cara de personalidade, dá pra ver isso nas suas entrevistas, apesar da pouca idade. Costuma fugir do lugar comum nas respostas, ao contrário da grande maioria dos jogadores de hoje em dia.

Grande parte de eu ser assim, com personalidade e sempre tranquilo nas entrevistas e em tudo que faço, é pela criação que tenho e tive lá atrás. Essa personalidade vem de dentro de mim, me preparei para isso e para enfrentar as coisas na vida.

Você entrou no time num momento conturbado, quando o pressionado Cristóvão Borges era o técnico e o Flamengo enfrentaria o Joinville fora de casa após derrota para o Vasco. E não saiu mais depois daquela vitória por 1 a 0. Lida bem com a pressão?

Pela pressão daquele jogo, posso falar que hoje estou preparado para qualquer pressão no futebol. O Flamengo estava numa fase não muito boa, tinha acabado de perder para o Vasco, e o próprio Cristóvão (Borges) chegou em mim e perguntou se eu estava preparado e confiante para jogar. Quando soube que jogaria, me concentrei bastante no jogo. Sabia que teria muita pressão e que tínhamos de sair com a vitória. Teria muita pressão na volta ao Rio. Os companheiros também me deram força, dizendo para eu ficar à vontade como na base.

Quando estava na base, você era titular, mas não um dos destaques. Enquanto seus companheiros eram convocados pras seleções de base, você só foi vestir a camisa amarela no sub-20. E hoje você é destaque no profissional e até na seleção olímpica, enquanto aqueles companheiros ou ainda estão na base, ou saíram para clubes menores, ou até já desistiram da carreira. Seu sucesso parece ter vindo na hora certa. É bem por aí mesmo?

Antigamente eu via as convocações, não via meu nome e ficava triste demais. Me dedicava bastante. Mas eu sabia que o momento chegaria. Era me manter focado e manter a preparação que vinha tendo. Sempre via jogadores de alta qualidade sendo convocados, passando para o profissional, não só no Flamengo. E o que me colocou na seleção olímpica e no profissional do Flamengo foi a cabeça boa, não desistir dos sonhos e objetivos dentro do clube. Muitos de repente não tiveram um conselheiro, como tenho meu pai.

Quando você pensa no seu futuro, enxerga uma brecha na lateral esquerda da seleção brasileira principal para de repente ocupar esse espaço de forma definitiva?

Tem jogadores de alta qualidade, mas com certeza enxergo. É sempre bom pensar em seleção principal. Graças a Deus estou tendo oportunidade na seleção olímpica, e isso já é um grande passo para chegar à principal. Se um dia eu tiver oportunidade, vou aproveitar como estou aproveitando na olímpica. Com certeza o peso na principal é maior, e vai ser importante para a minha vida ter uma brecha dessa.

Você tem um estilo mais caseiro? Não gosta muito de noitada?

Sempre fui assim, caseiro. Sempre procurei cuidar do meu corpo, o atleta precisa disso para ter recompensa lá na frente. Vejo jogadores como o Zé Roberto (do Palmeiras), que é referência pra gente que está subindo. É aprendizado para a vida. O que a gente conquista hoje vai ser importante para nossa vida lá na frente. Sempre procuro ficar na minha casa, com minha família. Sempre que tenho tempo vago vou visitar minha mãe. É bom estar cuidando do próprio corpo.

A mulherada começou a cair muito em cima depois que virou profissional e titular do Flamengo?Como lida com isso?

(Risos) Sou tranquilo também quanto a isso. Procuro escutar meu pai sobre mulher. Mas sou tranquilo e sei que vão aparecer muitas pessoas, não só mulheres, mas amizades também por interesse. Então, sempre procuro ser tranquilo com isso. Tenho minhas amizades de anos já, que são meus primos e os amigos de onde eu morava. O que aparecer hoje vai ser apenas colega, porque amigos de verdade mesmo são meu pai, minha mãe, minha família. Hoje vão aparecer falsas amizades.

O Flamengo viveu um ano péssimo em 2015, sem disputar nenhum título. A que você acredita que se deve isso?

Não está sendo um péssimo ano, é questão de fase. A gente estava numa fase maravilhosa de seis vitórias seguidas. Hoje posso dizer que estamos vivendo uma fase que não está nos favorecendo. No Flamengo não tem isso de péssima fase no ano. O Flamengo vive de fase, então hoje não estamos numa fase muito boa. Mas essa vitória sobre o Goiás (4 a 1) nos ajudou muito. O Flamengo vai estar sempre brigando por título e competições importantes.

Depois que o Flamengo foi eliminado da Copa do Brasil pelo Vasco, você foi abordado e provocado por torcedores rivais ao parar numa rede de lanchonetes, e um vídeo do episódio foi parar nas redes sociais. E antes do clássico você tinha dado entrevista se mostrando muito confiante. O que houve ali?

A gente estava chegando do jogo, eu estava descansando no carro, e meus primos estavam atrás. Aí a gente parou no Habib's. Quando desceram, eu acordei, não vi torcedor nenhum e fui ao banheiro. Até havia dois torcedores do Flamengo lá com as mulheres. Quando entrei no banheiro, comecei a ouvir uma gritaria e pensei: "Deve ser torcedor do Vasco". Eles já tinham me visto. Entraram no banheiro, e os torcedores do Flamengo falaram para pararem com a graça, para não arrumarem confusão. Até meu pai chegou e falou com eles. Isso não me causou mal nenhum. Qualquer torcedor vai fazer isso se encontrar jogador de time rival. Não foi uma brincadeira muito boa, mas fiquei tranquilo. Soube lidar na hora porque torcedor é assim mesmo, bota pilha, assim como aconteceu agora com os torcedores do Flamengo e o jogador do Vasco (Nenê). Não tenho mágoa de ninguém.

Nem o fato de terem exposto isso nas redes sociais te chateou?

Também não. Prejudicou o torcedor do Vasco por ter colocado na rede social. Nem os próprios torcedores do Vasco gostaram, porque ninguém sabe o dia de amanhã. Fiquei bastante tranquilo.

Você tem 1,83m de altura, algo incomum para lateral no Brasil. Acha que isso te beneficia defensivamente?

É verdade. O bom tamanho é excelente na marcação. Minha função hoje onde me destaco bastante é marcar, primeiro é isso. Não posso pensar só em atacar, essa posição é difícil. Os adversários são muito qualificados. Fico feliz pela evolução que tive, porque quando cheguei ao Flamengo eu era pequeno, e cresci. Isso me ajudou.

Você é alvo do interesse de muitos clubes hoje. Pensa em seguir no Flamengo por muitos anos ainda ou pensa em sair, caso venha proposta boa?

Deixo para o meu empresário e meu pai resolverem essas questões de propostas de outros clubes. São as pessoas que cuidam da minha carreira. Fico até feliz por pessoas de alto nível estarem de olho no meu trabalho. Mas o que posso dizer é que hoje quero fazer meu nome no Flamengo e, se um dia sair, sair de cabeça erguida e pela porta da frente.

3241 visitas - Fonte: Globoesporte


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