16/8/2020 13:50

Casos de coronavírus no Campeonato Brasileiro geram insegurança

Casos de coronavírus no Campeonato Brasileiro geram insegurança

Nos primeiros sete dias de Campeonato Brasileiro (nas Séries A, B e C), a CBF registrou exatos cem resultados positivos para a Covid-19. Os dados oficiais foram obtidos com exclusividade pela reportagem do Esporte Espetacular, em levantamento feito pela entidade, que obriga os clubes a lhe enviar o resultado dos testes antes de cada partida disputada.



Na primeira rodada, foram realizados 1.296 testes, com 74 atletas afastados de seus jogos. Com o adiamento de duas partidas (Goiás x São Paulo, pela Série A, e Treze-PB x Imperatriz-MA, pela Série C) por causa do excesso de atletas infectados de Goiás e Imperatriz, a CBF decidiu mudar alguns itens do protocolo de saúde contra a Covid.


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Os exames passam a ser estendidos a todos os jogadores inscritos na competição (e não mais os relacionados para cada jogo) e os testes são feitos por laboratórios locais para agilizar a transferência das informações.

Para a rodada do meio de semana, foram realizados 1.440 testes nas três principais divisões, com 26 atletas afastados por Covid, redução de 65% com relação à primeira jornada. Os casos mais emblemáticos e preocupantes foram os do CSA, com 20 dos 31 jogadores infectados, o que provocou o adiamento do jogo contra a Chapecoense, que aconteceria neste fim de semana, e o do Goiás, com 17 infectados desde que os exames começaram a ser coletados.


– Nós baixamos de 5,7% de incidência na primeira rodada para 1,8% na segunda, mesmo aumentando o número de testes. Outro dado importante: 54% dos casos positivos foram registrados em quatro clubes. Há risco, claro, mas não acredito que um atleta será infectado jogando futebol – afirma Jorge Pagura, presidente da Comissão de Médicos da CBF.

Dos cem casos, 22 foram registrados na Série A, 43 na Segundona e 35 na Terceira Divisão.

– Nenhum jogador foi infectado jogando até agora contra o seu adversário. Inclusive, os jogadores da Série A jogam com chip e estamos fazendo um trabalho com a CBF para acompanhar durante os 90 minutos ou mais, para verificar os jogadores com quem ele teve contato, porque se no dia seguinte dá positivo o teste, eu sei se de repente ele pode ter infectado outros atletas – diz o médico Clovis Arns, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Para saber como as competições nacionais voltaram em meio à pandemia, o Esporte Espetacular ouviu dezenas de pessoas espalhadas pelo Brasil, entre jogadores, técnicos, preparadores físicos e dirigentes de clubes, além de médicos da CBF, infectologistas e especialistas em direito do Trabalho.

– Daqui a pouco outros clubes podem ser acometidos do mesmo tipo de problema que nós fomos acometidos. Daqui a pouco, se essa desigualdade se alastrar, talvez fosse o caso de se criar uma regra com um número máximo de atletas afastados para esse jogo não acontecer. Não estou dando dica, estou dizendo que outros clubes podem padecer desse problema – afirma o presidente do Goiás, Marcelo Almeida.

– Todos nós estamos muito assustados. Os jogadores são de carne e osso, são humanos e têm o sentimento do medo com toda certeza, principalmente em se tratando de uma possível contaminação dos seus familiares. Os atletas são menos afetados pela saúde e condição física, mas isso não acontece com seus familiares – completa Almeida.

– Qualquer protocolo que a gente venha fazer, qualquer providência que a gente venha tomar, não vai atender 100% de segurança porque existe uma coisa entre memória imunológica, que é a diferença entre o contágio e a detecção pelos exames. Por mais que a gente tenha cuidado com os exames, essa janela pode permitir a contaminação sem a detecção – diz o médico do CSA, Fabio Lima.

Insegurança
A mudança de protocolo e a chegada dos resultados com mais celeridade devem fazer com que a CBF suspenda uma partida com antecedência. Evitando, assim, que um time vá a campo e só então fique sabendo do adiamento.

– Nosso problema foi esse. Os atletas foram testados em Imperatriz (interior do Maranhão), mas o resultado só chegou quando a gente já estava em Campina Grande (interior da Paraíba), no domingo de manhã. Acho que essa velocidade na divulgação do resultado vai ajudar – afirma o diretor de futebol do Imperatriz, Marcelo Lucas.

A maioria dos jogadores ouvidos pelo EE repetiu que a pandemia preocupa, mas se sentem seguros com os protocolos de saúde instalados pelos clubes e pelas federações. Mas também houve reclamações e declarações fortes contra a volta do futebol nesse momento em que o coronavírus mata mais de 1.000 pessoas em média por dia no Brasil – segundo o Ministério da Saúde, o país chegou a 3.275.520 casos e 106.523 mortes confirmadas pela Covid 19 até as 18h da última sexta-feira (14).


– Isso transcende o lado esportivo. O país não está preparado para enfrentar a pandemia da maneira como nós enfrentamos, ou seja brincando com isso, atingindo um número de mortos absurdo – diz o técnico do Botafogo, Paulo Autuori.
– Nós decidimos voltar, todo mundo acreditou em voltar, existe sempre um protocolo a ser seguido, mas nós temos que entender que nós estamos expostos realmente a contrair. E acho sinceramente que nós atletas estamos ajudando muitas pessoas a ficar em casa. Apesar de, pouco a pouco, já estarem abrindo comercio, abrindo tudo, e as pessoas estarem, mesmo com essa pandemia, tentando voltar à vida normal – afirma o zagueiro e volante Felipe Melo, do Palmeiras.

Também do Palmeiras, Vanderlei Luxemburgo sugere que a CBF estabeleça um número mínimo de jogadores afastados para suspender automaticamente uma partida. Para o técnico, apesar de o clube ter até 40 jogadores inscritos, pouco menos de 20 são realmente utilizados.

– Se você pegar dez jogadores (com Covid 19) dos 15 principais do seu time, não tem como você jogar. Deveria ter um número que realmente cancelasse o jogo – afirma Luxa.

Ele mesmo foi contaminado pelo novo coronavírus logo quando o Palmeiras voltou aos treinamentos para a retomada do Campeonato Paulista.

O técnico do Paysandu, Hélio dos Anjos, tem 62 anos e faz parte do grupo de risco, como uma grande parte dos treinadores do país. Ele admite que não se sente seguro ao viajar de avião, por exemplo.

– Eu, pelo menos, há muito tempo não entro em um avião, não frequento aeroporto, e vamos agora partir para isso. Então, os cuidados terão de ser maiores. Vou me proteger, de todas as formas, nas cidades que irei visitar, e fazer isolamento nas cidades. Só sair mesmo para fazer o jogo, voltar para o hotel e manter isolamento em todos os sentidos porque essa é uma forma de nós colaborarmos – afirma Hélio.

– Os protocolos são os mais rigorosos e estão sendo atendidos, mas o que acho que está errado, por exemplo, é na logística dos transportes das delegações. Viajamos agora (sexta-feira) e não foi respeitado a questão do espaço livre entre os assentos – reclama Rogerio Lana, diretor financeiro e chefe de delegação do Brusque (SC), após viagem aerea para enfrentar o São Bento, de Sorocaba, interior de São Paulo, pela segunda rodada da Série C.

Pelo protocolo de saúde, os clubes pagam os exames e a CBF reembolsa em seguida. Os voos também são pagos pela entidade. Se alguns clubes optarem por voos fretados, como alguns da Série A estão fazendo, eles assumem a diferença dos gastos.

Direitos dos atletas
Os casos de Covid registrados na primeira semana acendeu o alerta do Ministério Público do Trabalho e de pelo menos um sindicato de atletas no Brasil. No Maranhão, a Procuradoria do Trabalho do Município de Imperatriz, abriu investigação para apurar possíveis falhas no protocolo em defesa da segurança e da saúde dos jogadores que disputariam o jogo contra o Treze. A informação foi divulgada pelo Blog Lei em Campo na terça-feira.

No dia seguinte, o Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo ameaçou ir à Justiça e pedir a paralisação do Campeonato Brasileiro, se a CBF não alterar os protocolos previstos para o retorno do futebol.


Jorge Pagura afirma que a CBF tem tido o cuidado de ouvir atletas, funcionários e dirigentes de clubes para adequar e aperfeiçoar o protocolo. Na última sexta-feira, o médico se reuniu virtualmente com o presidente da Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) com pelo menos dois jogadores (o volante Hudson, do Fluminense, e o goleiro Julio Cesar, do Bragantino) para ouvir sugestões e reclamações.

– Como todo trabalhador que está indo pra rua, estamos em risco. Mas eu não tenho me sentido muito ameaçado. Acho que as coisas que podem ser feitas, estão sendo feitas. Tento proteger minha família e procuro fazer a minha parte. E como líder e capitão do time, tenho influenciado também o meu grupo pra que eles tenham essa consciência de se cuidarem ao máximo – diz o zagueiro Danny Morais, do Santa Cruz.

Leone Pereira, pós-doutor e professor em direito do Trabalho, concorda que a situação é delicada, complexa, mas o risco é preocupante.

– De um lado nós temos a necessidade da preservação do emprego e das rendas dos atletas. Mas de outro, temos a vida e a saúde dos atletas. Talvez, a gente pudesse calibrar melhor esses valores, a retomada dos jogos da forma que vem ocorrendo não seria a saída mais saudável – afirma Leone.

Ele alerta que o atleta pode sim acionar o empregador, no caso o clube, na Justiça.

– A partir do momento em que o ambiente do trabalho põe em risco a vida e a saúde do trabalhador sem que todos cuidados sejam tomados, ele pode entrar com uma ação pedindo para o poder judiciário que a Justiça do Trabalho reconheça a falta grave da empresa, e portanto a extinção do contrato, com a condenação do clube em todos os direitos trabalhistas - diz

Os médicos que trabalharam na formulação do protocolo seguem buscando melhorias. E informando os atletas sobre a importância dos cuidados pessoais.


– O que tiramos de lição até aqui com esses jogos adiados e o alto número de jogadores contaminados: possivelmente eles se infectaram na concentração, às vezes estão juntos sem máscara. Estamos aproveitando para orientar os atletas e os médicos de, quando estiverem na concentração, manterem regras básicas, que são usar máscara e manter o distanciamento para minimizar a chance do elenco inteiro ficar infectado – diz Clovis Arns.

O que dizem outros personagens
Junior Alonso, zagueiro paraguaio do Atlético-MG
"É um pouco complicado tudo isso da pandemia. Mas creio que aqui e em todas as equipes estão sendo tomadas as medidas necessárias para que o futebol seja seguro e que nos deixe tranquilos para jogar."

Honda, meia do Botafogo
"Talvez eu devesse pensar sobre isso (a pandemia) positivamente, mas estou triste. Muitas pessoas morreram por causa dessa doença e ainda continuam morrendo. Ninguém consegue encontrar a melhor solução e esse é o problema. Temos que ser pacientes para enfrentar o coronavírus por um bom tempo. Porque não acho que vamos resolver esse problema agora"

Marcos Braz, vice-presidente de futebol do Flamengo
"Eu acho que os ajustes (no protocolo) devem ser feitos permanentemente. Poucas pessoas são entendedoras dessa pandemia, é um fato novo, tudo é muito novo. Então se começou, se iniciou com algum protocolo e no meio do processo se analisou que é melhor fazer alguns ajustes, não vejo nenhum problema"

Odair Hellmann, técnico do Fluminense
"A CBF e as pessoas que organizam (o campeonato) precisam ter a sensibilidade de não tomar decisões diferentes em situações iguais para que não tenha diferença técnica. Porque já há muitas diferenças técnicas, questão financeira, de uma estrutura maior, de clube com mais qualificação, com maior número de jogadores para enfrentar um campeonato em um ano normal, imagina em um ano atípico"

Michel Araújo, atacante uruguaio do Fluminense
"Eu penso que seria melhor não jogar, mas no Brasil está acontecendo isso de que a gente tem que jogar, tem que viajar, tem que estar com muitas pessoas que não fazem exame, no aeroporto, no hotel... Mas agora a gente tem que tirar isso da cabeça e concentrar no jogo, porque agora é isso o que mais importa"

Carlinhos, meia do Vasco
"O clube onde eu estava (o Standard de Liege, da Bélgica) também se adaptou ao que está se passando e não tivemos problema algum, com nenhum jogador da equipe. Claro que aqui no Brasil a preocupação está grande, mas creio que o Vasco e as outras equipes vão se cuidar para que não haja mais casos"

Bruno Silva, volante do Avaí
"Lógico que existe o risco, mas a gente está se prevenindo, tanto que os resultados dos exames aqui no Avaí mostram isso. A gente está tranquilo e com segurança para fazer nosso trabalho"

Luciano Sorriso, diretor de futebol do Figueirense
"Temos alguns problemas com logísticas porque é um país grande, com muitas viagens longas. O ideal seria fazer como a NBA, criar uma bolha, mas aqui é impossível pelo tamanho do campeonato. Então, temos de cuidado, seguir o protocolo até o fim"

Germano, diretor de futebol do Londrina
"Nós estamos tendo o cuidado de montar o protocolo, mas temos que ter o respeito. Mesmo com todos os cuidados, ninguém pode dizer que você está imune ao vírus. Então, é preciso sempre conversar e alertar para os cuidados individuais de cada um."



Mateus Oliveira, atacante do Manaus
"Nós vamos jogar contra o Botafogo da Paraíba (em João Pessoa), então é melhor receber o resultado antes de viajar. A gente sabe que não há protocolo para os demais passageiros, mas saber que o companheiro que está viajando ao lado não está com a doença já deixa a gente mais tranquilo. Segurança não dá pra dizer que temos, mas temos que trabalhar. E a cada semana a gente faz teste pra ver se está tudo bem".

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945 visitas - Fonte: Globo Esporte


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