31/8/2026 22:40
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Nação Rubro-Negra: como uma expressão virou identidade — e por que sua origem ainda é disputada
“Nação Rubro-Negra” parece hoje um nome tão natural para a torcida do Flamengo que é fácil imaginar que sempre esteve ali. Mas nem o próprio “rubro-negro” nasceu junto com o clube. Segundo a história oficial do Flamengo, as primeiras cores eram azul e amarelo-ouro; vermelho e preto só foram adotados oficialmente em 23 de novembro de 1896, pouco mais de um ano depois da fundação.
Essa mudança ajuda a entender a história maior. Identidades esportivas raramente aparecem prontas. Cores, apelidos e símbolos acumulam significado com o tempo, até que sua origem quase desaparece atrás da familiaridade.
Com “Nação Rubro-Negra”, o processo é ainda mais difícil de reconstruir. Existem atribuições concorrentes sobre quem criou a expressão, uma formulação parecida atribuída a outro personagem e até uma disputa judicial em torno de seu uso comercial. Separar essas histórias exige distinguir memória, autoria atribuída e primeiro uso comprovado.
A discussão também mostra como uma identidade criada em torno das arquibancadas pode adquirir valor muito além delas. O futebol atual movimenta licenciamento, programas de sócio-torcedor, mídia e um enorme mercado digital que inclui sites de apostas estrangeiros. Nesse ambiente, palavras capazes de identificar instantaneamente milhões de torcedores deixam de ser apenas apelidos.
Antes da Nação, vieram as cores
A reunião que formalizou o Grupo de Regatas do Flamengo ocorreu na noite de 17 de novembro de 1895, no número 22 da Praia do Flamengo. Na própria reunião, porém, ficou decidido que 15 de novembro seria considerada a data oficial de fundação do clube.
Também é dali que vem outra pequena quebra daquilo que hoje parece óbvio. O Flamengo começou azul e amarelo-ouro. Segundo o clube, essas cores desbotavam com facilidade nas águas da baía, enquanto o tecido importado da Inglaterra pesava no orçamento. Nestor de Barros propôs a mudança e, em novembro de 1896, nasceram oficialmente o vermelho e o preto.
A palavra “rubro-negro”, portanto, só poderia se tornar parte da identidade flamenguista depois que a própria combinação de cores já havia sido construída.
Charanga: quando o deboche vira nome
Quase meio século depois, uma palavra lançada como provocação seguiria caminho parecido.
Em 11 de outubro de 1942, Jayme de Carvalho levou sua forma organizada e musical de torcer a um Fla-Flu nas Laranjeiras. O Flamengo considera a Charanga Rubro-Negra fundada naquele dia a primeira torcida organizada da história do futebol brasileiro.
O nome não veio de uma campanha do clube. Veio de Ary Barroso.
Segundo o próprio Flamengo, o locutor chamou o grupo de “charanga” por causa da qualidade duvidosa dos músicos. O comentário depreciativo pegou — só que não da maneira esperada. Os torcedores incorporaram a palavra e transformaram o deboche em nome.
Era um mecanismo que a torcida do Flamengo repetiria de forma ainda mais poderosa algumas décadas depois.
1969: o insulto que mudou de dono
Na década de 1960, “urubu” era usado por torcedores adversários de maneira pejorativa contra os flamenguistas.
Em 1º de junho de 1969, antes de um clássico contra o Botafogo no Maracanã, um grupo de rubro-negros levou um urubu ao estádio e o soltou pouco antes da partida. Naquele dia, o Flamengo venceu por 2 a 1.
O mais importante aconteceu fora do placar. A torcida se apropriou justamente do símbolo usado para atacá-la. O Museu Flamengo descreve o episódio como a transformação de uma “ofensa preconceituosa” em um símbolo de garra e resistência do clube.
O urubu não explica a origem de “Nação Rubro-Negra”. A Charanga também não. Mas os dois episódios mostram algo essencial para entender por que a expressão funcionou tão bem: a identidade flamenguista foi sendo construída também pela capacidade da própria torcida de absorver palavras e símbolos e mudar o significado deles.
Quem criou “Nação Rubro-Negra”?
Aqui a história deixa de ter uma resposta limpa.
Em 2022, o espólio do jornalista Aristélio Travassos de Andrade entrou na Justiça contra o Flamengo por causa do uso comercial da expressão. Segundo a família, Aristélio teria criado “Nação Rubro-Negra” na década de 1970, quando era chefe da sucursal carioca da revista Placar. O processo pedia reparação pelo uso do termo, inclusive no programa de sócio-torcedor do clube.
É uma reivindicação explícita de autoria. Mas ela não encerra a investigação histórica.
Em agosto de 2025, apareceu publicamente outra atribuição. Em uma coluna posteriormente reproduzida pela Academia Brasileira de Letras, Ruy Castro contou ter recebido do pesquisador Marcelo Dunlop uma lista de figuras importantes ligadas ao Flamengo. Nela, Edigar de Alencar — escritor e historiador do carnaval — é identificado como o criador da expressão “Nação Rubro-negra”.
E a história ganha mais uma camada quando se volta ao próprio Ruy Castro.
Em O Vermelho e o Negro, ao falar da ideia de que “o Flamengo é uma nação”, Castro registra que, segundo Edigar de Alencar, essa frase teria sido criada pelo deputado federal cearense Walter Bezerra de Sá na década de 1970.
As três informações parecem disputar o mesmo espaço, mas não dizem exatamente a mesma coisa.
A família de Aristélio reivindica a autoria da expressão específica “Nação Rubro-Negra”. Dunlop atribui essa mesma expressão a Edigar de Alencar. Já o relato preservado por Ruy Castro fala de outra formulação — “o Flamengo é uma nação” — e a atribui, por intermédio do próprio Edigar, a Walter Bezerra de Sá.
Essa diferença é decisiva.
Uma pessoa pode ter formulado a ideia do Flamengo como uma nação; outra pode ter chegado depois à expressão compacta “Nação Rubro-Negra”; e ainda outra pode ter sido responsável por fazê-la circular amplamente. Sem um registro primário que estabeleça com segurança o primeiro uso da expressão exata, transformar qualquer uma dessas atribuições em autoria definitivamente comprovada seria ir além do que as fontes permitem.
Quando duas palavras passam a valer dinheiro
A controvérsia deixou de ser apenas histórica quando chegou aos tribunais.
A ação iniciada pelo espólio de Aristélio em 2022 contestava justamente a exploração comercial da expressão pelo Flamengo. Anos depois, a disputa chegou ao registro do Supremo Tribunal Federal: em 16 de agosto de 2025, o STF registrou o Recurso Extraordinário com Agravo nº 1.563.613, tendo o espólio de Aristélio como recorrente e o Clube de Regatas do Flamengo como recorrido.
Esse fato processual não decide quem criou a expressão. Tampouco significa, por si só, que o STF tenha reconhecido qualquer direito autoral sobre ela.
Mas revela algo importante sobre o caminho percorrido por “Nação Rubro-Negra”. Uma expressão que nasceu ou se consolidou no vocabulário do futebol tornou-se valiosa o suficiente para que seu uso comercial fosse disputado judicialmente décadas depois.
Uma história maior que a autoria
Talvez o erro seja imaginar que descobrir quem escreveu primeiro as palavras “Nação Rubro-Negra” resolveria toda a história.
Resolveria uma questão importante: a do primeiro registro. Mas não explicaria por que a expressão sobreviveu.
O próprio percurso dos símbolos do Flamengo sugere uma resposta. O clube não nasceu vermelho e preto. “Charanga” não nasceu como um nome solene. O urubu não nasceu como mascote querido. Em cada caso, alguma coisa ganhou um significado que não possuía originalmente.
Com “Nação”, aconteceu algo parecido em escala muito maior.
Em algum momento, a ideia deixou de depender de quem a pronunciara primeiro. Passou para jornais, arquibancadas, campanhas, músicas, produtos e para a linguagem cotidiana dos próprios torcedores. “Nação” deixou de funcionar apenas como uma descrição e virou quase um nome próprio.
É por isso que as diferentes versões sobre Aristélio, Edigar de Alencar e Walter Bezerra de Sá importam. Elas mostram como é difícil encontrar uma assinatura individual na origem de uma identidade coletiva.
Pode ter existido uma primeira pessoa a escrever exatamente “Nação Rubro-Negra”. Encontrar esse registro seria historicamente importante.
Mas alguém pode ter escrito “Nação Rubro-Negra” primeiro. Foram milhões de torcedores que fizeram a expressão significar o que significa hoje.
Essa mudança ajuda a entender a história maior. Identidades esportivas raramente aparecem prontas. Cores, apelidos e símbolos acumulam significado com o tempo, até que sua origem quase desaparece atrás da familiaridade.
Com “Nação Rubro-Negra”, o processo é ainda mais difícil de reconstruir. Existem atribuições concorrentes sobre quem criou a expressão, uma formulação parecida atribuída a outro personagem e até uma disputa judicial em torno de seu uso comercial. Separar essas histórias exige distinguir memória, autoria atribuída e primeiro uso comprovado.
A discussão também mostra como uma identidade criada em torno das arquibancadas pode adquirir valor muito além delas. O futebol atual movimenta licenciamento, programas de sócio-torcedor, mídia e um enorme mercado digital que inclui sites de apostas estrangeiros. Nesse ambiente, palavras capazes de identificar instantaneamente milhões de torcedores deixam de ser apenas apelidos.
Antes da Nação, vieram as cores
A reunião que formalizou o Grupo de Regatas do Flamengo ocorreu na noite de 17 de novembro de 1895, no número 22 da Praia do Flamengo. Na própria reunião, porém, ficou decidido que 15 de novembro seria considerada a data oficial de fundação do clube.
Também é dali que vem outra pequena quebra daquilo que hoje parece óbvio. O Flamengo começou azul e amarelo-ouro. Segundo o clube, essas cores desbotavam com facilidade nas águas da baía, enquanto o tecido importado da Inglaterra pesava no orçamento. Nestor de Barros propôs a mudança e, em novembro de 1896, nasceram oficialmente o vermelho e o preto.
A palavra “rubro-negro”, portanto, só poderia se tornar parte da identidade flamenguista depois que a própria combinação de cores já havia sido construída.
Charanga: quando o deboche vira nome
Quase meio século depois, uma palavra lançada como provocação seguiria caminho parecido.
Em 11 de outubro de 1942, Jayme de Carvalho levou sua forma organizada e musical de torcer a um Fla-Flu nas Laranjeiras. O Flamengo considera a Charanga Rubro-Negra fundada naquele dia a primeira torcida organizada da história do futebol brasileiro.
O nome não veio de uma campanha do clube. Veio de Ary Barroso.
Segundo o próprio Flamengo, o locutor chamou o grupo de “charanga” por causa da qualidade duvidosa dos músicos. O comentário depreciativo pegou — só que não da maneira esperada. Os torcedores incorporaram a palavra e transformaram o deboche em nome.
Era um mecanismo que a torcida do Flamengo repetiria de forma ainda mais poderosa algumas décadas depois.
1969: o insulto que mudou de dono
Na década de 1960, “urubu” era usado por torcedores adversários de maneira pejorativa contra os flamenguistas.
Em 1º de junho de 1969, antes de um clássico contra o Botafogo no Maracanã, um grupo de rubro-negros levou um urubu ao estádio e o soltou pouco antes da partida. Naquele dia, o Flamengo venceu por 2 a 1.
O mais importante aconteceu fora do placar. A torcida se apropriou justamente do símbolo usado para atacá-la. O Museu Flamengo descreve o episódio como a transformação de uma “ofensa preconceituosa” em um símbolo de garra e resistência do clube.
O urubu não explica a origem de “Nação Rubro-Negra”. A Charanga também não. Mas os dois episódios mostram algo essencial para entender por que a expressão funcionou tão bem: a identidade flamenguista foi sendo construída também pela capacidade da própria torcida de absorver palavras e símbolos e mudar o significado deles.
Quem criou “Nação Rubro-Negra”?
Aqui a história deixa de ter uma resposta limpa.
Em 2022, o espólio do jornalista Aristélio Travassos de Andrade entrou na Justiça contra o Flamengo por causa do uso comercial da expressão. Segundo a família, Aristélio teria criado “Nação Rubro-Negra” na década de 1970, quando era chefe da sucursal carioca da revista Placar. O processo pedia reparação pelo uso do termo, inclusive no programa de sócio-torcedor do clube.
É uma reivindicação explícita de autoria. Mas ela não encerra a investigação histórica.
Em agosto de 2025, apareceu publicamente outra atribuição. Em uma coluna posteriormente reproduzida pela Academia Brasileira de Letras, Ruy Castro contou ter recebido do pesquisador Marcelo Dunlop uma lista de figuras importantes ligadas ao Flamengo. Nela, Edigar de Alencar — escritor e historiador do carnaval — é identificado como o criador da expressão “Nação Rubro-negra”.
E a história ganha mais uma camada quando se volta ao próprio Ruy Castro.
Em O Vermelho e o Negro, ao falar da ideia de que “o Flamengo é uma nação”, Castro registra que, segundo Edigar de Alencar, essa frase teria sido criada pelo deputado federal cearense Walter Bezerra de Sá na década de 1970.
As três informações parecem disputar o mesmo espaço, mas não dizem exatamente a mesma coisa.
A família de Aristélio reivindica a autoria da expressão específica “Nação Rubro-Negra”. Dunlop atribui essa mesma expressão a Edigar de Alencar. Já o relato preservado por Ruy Castro fala de outra formulação — “o Flamengo é uma nação” — e a atribui, por intermédio do próprio Edigar, a Walter Bezerra de Sá.
Essa diferença é decisiva.
Uma pessoa pode ter formulado a ideia do Flamengo como uma nação; outra pode ter chegado depois à expressão compacta “Nação Rubro-Negra”; e ainda outra pode ter sido responsável por fazê-la circular amplamente. Sem um registro primário que estabeleça com segurança o primeiro uso da expressão exata, transformar qualquer uma dessas atribuições em autoria definitivamente comprovada seria ir além do que as fontes permitem.
Quando duas palavras passam a valer dinheiro
A controvérsia deixou de ser apenas histórica quando chegou aos tribunais.
A ação iniciada pelo espólio de Aristélio em 2022 contestava justamente a exploração comercial da expressão pelo Flamengo. Anos depois, a disputa chegou ao registro do Supremo Tribunal Federal: em 16 de agosto de 2025, o STF registrou o Recurso Extraordinário com Agravo nº 1.563.613, tendo o espólio de Aristélio como recorrente e o Clube de Regatas do Flamengo como recorrido.
Esse fato processual não decide quem criou a expressão. Tampouco significa, por si só, que o STF tenha reconhecido qualquer direito autoral sobre ela.
Mas revela algo importante sobre o caminho percorrido por “Nação Rubro-Negra”. Uma expressão que nasceu ou se consolidou no vocabulário do futebol tornou-se valiosa o suficiente para que seu uso comercial fosse disputado judicialmente décadas depois.
Uma história maior que a autoria
Talvez o erro seja imaginar que descobrir quem escreveu primeiro as palavras “Nação Rubro-Negra” resolveria toda a história.
Resolveria uma questão importante: a do primeiro registro. Mas não explicaria por que a expressão sobreviveu.
O próprio percurso dos símbolos do Flamengo sugere uma resposta. O clube não nasceu vermelho e preto. “Charanga” não nasceu como um nome solene. O urubu não nasceu como mascote querido. Em cada caso, alguma coisa ganhou um significado que não possuía originalmente.
Com “Nação”, aconteceu algo parecido em escala muito maior.
Em algum momento, a ideia deixou de depender de quem a pronunciara primeiro. Passou para jornais, arquibancadas, campanhas, músicas, produtos e para a linguagem cotidiana dos próprios torcedores. “Nação” deixou de funcionar apenas como uma descrição e virou quase um nome próprio.
É por isso que as diferentes versões sobre Aristélio, Edigar de Alencar e Walter Bezerra de Sá importam. Elas mostram como é difícil encontrar uma assinatura individual na origem de uma identidade coletiva.
Pode ter existido uma primeira pessoa a escrever exatamente “Nação Rubro-Negra”. Encontrar esse registro seria historicamente importante.
Mas alguém pode ter escrito “Nação Rubro-Negra” primeiro. Foram milhões de torcedores que fizeram a expressão significar o que significa hoje.
118 visitas - Fonte: Torcida Flamengo
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